Spanish English Portuguese
  Versión PDF

 

Temporalidades e territorialidades juvenis em uma metrópole brasileira

La temporalidad y la juventud territorialidad en una metrópolis brasileñas

Temporalities and juvenile territorialities in a Brazilian metropolis

Silvia Helena Simões Borelli**
Rosamaria Luiza (Rose) de Melo Rocha***


* Este artigo apresenta resultados da pesquisa “Jovens urbanos: concepções de vida e morte, experimentação da violência e consumo cultural” vinculada, no Brasil, ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais (PUCSP); financiada pela FAPESP, teve sua origem, em 2001, na proposta de composição de uma rede internacional de pesquisadores, sob a responsabilidade do IESCO-UC, Bogotá, Colômbia.

** Antropóloga, Pesquisadora e Professora Doutora dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais e em Comunicação e Artes (PUC/SP e SENAC/SP). E-mail: Esta dirección de correo electrónico está protegida contra spambots. Usted necesita tener Javascript activado para poder verla.

*** Doutora em Ciências da Comunicação (ECA/USP), pós-doutorado em Ciências Sociais (PUC/SP) e professora da PUC/SP e ESPM/SP. E-mail: Esta dirección de correo electrónico está protegida contra spambots. Usted necesita tener Javascript activado para poder verla.


Resumen

El artículo analiza interconexiones entre experimentaciones temporales y vivencias territoriales de jóvenes urbanos (São Paulo, Brasil). Se basa en el adensamiento del debate sobre juventud en la contemporaneidad y, anclándose en diferentes instrumentos de campo propone la delimitación de ejes teórico-metodológicos capaces de detectar “mapas de tensiones” y destacar, entre otros: nomadismos, moratoria social, temporalidades y socialidades, revelados en especial en los modos de construcción subjetiva propiciados por la ocupación de espacios urbanos públicos y privados.

Palabras clave: Juventud; temporalidad; territorialidad

Resumo

O artigo analisa interconexões entre experimentações temporais e vivências territoriais de jovens urbanos (São Paulo, Brasil). Tomando por base o adensamento do debate sobre juventude na contemporaneidade e ancorando-se em diferentes instrumentos de campo, propõe a delimitação de eixos teórico-metodológicos capazes de detectar “mapas de tensões” e destacar, entre outros: nomadismos, moratória social, temporalidades e socialidades revelados, em especial, nos modos de construção subjetiva propiciados pela ocupação de espaços urbanos públicos e privados.

Palavras-chaves: Juventude; temporalidade; territorialidade

Abstract

This article analyses the interconnections between temporal experiences and territorial personal experiences of urban youths (São Paulo, Brazil). It is based in the densification of the contemporary debate on youth and, anchoring in different field tools, proposes to delimit the theoretical and methodological axis able to detect “maps of tensions” and highlight, among others: nomadisms, social moratorium, temporalities, and socialities. These are revealed in special in the ways of subjective construction that are sponsored by the occupation of urban spaces, both public and private.

Key words: youth, temporality, territoriality


O debate acerca da juventude vem se pautando por duas vertentes que, de forma equivocada, podem se apresentar como opostas e não-complementares. De um lado, define-se por substratos universais: conflitos geracionais, padrões de linguagem, rebeldia, heroísmo e aventura, adesão ao movimento e ao jogo, ligação ao presente e rejeição ao passado, recusa da experiência, auto-realização, exaltação da vida privada, ideal de beleza, amor e felicidade (Morin, 1984).

Os partidários desta vertente preconizam que todos os jovens respondem por um padrão de identificação capaz de torná-los visíveis em qualquer parte do mundo. Apregoam, ainda, que as sociedades modernas estão organizadas prioritariamente ao redor de um modelo de “juvenilização”, um dos elementos básicos para a construção de referenciais de universalidade: “(…) o tema da juventude não concerne apenas aos jovens, mas também àqueles que envelhecem” (Morin, 1984:152-153).

Segundo Margulis e Urresti (1998: 5), “no mercado de bens simbólicos ser jovem é ter prestígio; os que emanam ‘juventude’ têm alta cotação”. Esta idéia confirma-se em depoimentos juvenis colhidos em pesquisa realizada na cidade de São Paulo (Brasil), como pode ser visto a seguir:

Juventude é o meio de vida, viver muito, divertir-se muito, tipo aquele velhinho que está em plena juventude. Eu dou risada: ele não está não! O maior velho está na juventude, por quê? (P.S.B. 15-17; F/ZS)1.

O que é ser jovem? É… uma época que você pode saber o que é juventude, brincar cada vez mais e nunca, nunca deixar de tirar a criança dentro de si, nunca, nunca… ser jovem é aproveitar cada segundo da vida, mas sendo feliz sem se destruir (J.S.S. 15-17; F/ZS).

Os fortes marcadores temporais aqui expressos –“viver muito”, “divertir- se muito”, “aproveitar cada segundo da vida”– apontam sutis percepções da intensidade, o “aqui agora” como garantia de longevidade juvenil, e, paradoxalmente, de um quase mítico resgate da infância em sua dimensão lúdica e descompromissada: o brincar é um fim em si, mas balizado por um grau de consciência próprio da maturidade.

Encontram-se ainda perspectivas teóricas que respondem por jovens territorializados em contextos particulares. Estas tendências objetivam responder por este ou aquele jovem em suas inserções singulares: como, subjetivamente, cada jovem articula e experimenta a hierarquia de classes e as desigualdades sociais, a exposição à violência, as condições de gênero e etnia, o acesso ao consumo cultural, entre outros.

O que se assume no projeto de pesquisa que referencia este artigo é que os jovens são, ao mesmo tempo, universais e singulares, vivendo em situações de forte tensão entre o seu mundo e o dos adultos, este último pautado por lógicas institucionais que nem sempre conseguem incorporar outras sensibilidades, novas formas de relacionamento, conhecimento e experimentação.

Também, incorpora- se a perspectiva de que os jovens são atores capazes de produzir e provocar ressignificações no campo das dinâmicas sócio- culturais. Desde este ponto de vista, confirma-se que as concepções juvenis estão expressas não somente em conteúdos intrínsecos, mas principalmente em seus modos de operar. Disso deriva a noção de “mapas de tensões”2, recurso para compreensão dos elementos e das correlações de forças que formam tais concepções. Elas não se caracterizam por coerência e unicidade, mas por constante choque ou fluxo: um mesmo elemento presente em um mapa particular pode aparecer em outro ocupando lugar diferenciado, de acordo com o jogo de tensões em que se situe. Alguns vetores se destacam neste “mapa de tensões”: as conexões entre nomadismo, moratória social e vivências espaço-temporais.

Na análise destes elementos e de suas articulações, temos como objeto específico de investigação jovens moradores da zona sul e oeste da cidade de São Paulo3. Jovens que de acordo com recortes socioeconômicos de nossa sociedade podem ser classificados enquanto moradores periféricos ou situados mais ao centro. Periféricos enquanto despossuídos de equipamentos culturais, sociais e qualidade de vida e, mais ao centro, no sentido de estarem situados mais próximos destes indicadores. As características acima fazem parte de uma noção que concebe a juventude em sua perspectiva singular recortada pelas seguintes variáveis: classe social; a divisão por jovens por faixa etária (15-24 anos); nível de escolaridade e o cotidiano escolar; o relacionamento com a família, bairro, cidade; os produtos e manifestações de produção e consumo culturais; a experimentação da violência e as concepções de vida e morte. Entretanto, como já citado, a categoria juventude também pode ser concebida em sua perspectiva universalizante que associa a categoria aos conceitos de jovem, juvenil, juvenilização conectada as noções de rebeldia, heroísmo, espírito de aventura e outros.

Nomadismo

Na caracterização do perfil da juventude contemporânea, destacase o nomadismo. Ele pode ser entendido no seu sentido literal –deslocamento espacial e geográfico, “des-centramento, des-espacialização” (Martín-Barbero, 1997)– como se ampliar em direção a uma mobilidade temporal –viver tempos de passagem, alternância momentânea, simultaneidades; ou, ainda, supor a existência de um nomadismo de percepção– absorver fluxos, filtrar, aparar, equacionar os inúmeros “chocs” (Benjamin, 1989:109-113) que resultam de uma vida cotidiana tensa e intensa permeada pela relação com a cidade e conectada a tradicionais e recentes mídias.

Para Maffesoli (2000:152-153) o nomadismo juvenil se justifica porque os jovens se percebem situados em um mundo “estranho/estrangeiro” e nele se inserem de formas alternadas: ora respondendo de maneira organizada e programada ou, de tempos em tempos, de forma “insidiosa, desordenada e insolente” que expressaria a recusa às imposições de um contexto que envelhece e o desejo de se distanciar dele, definindo outros lugares por onde “escapar”. Do ponto de vista analítico, afirma-se que os jovens são “um objeto nômade, de contornos difusos” (Martín-Barbero, 1998:22).

São nômades porque tomam conta da cidade, numa circulação transversal que explode os limites da espacialidade urbana:

Antes só ficava por aqui. Agora é que comecei a ir mais para o outro lado, assim… para a zona sul. Sempre fiquei muito na zona oeste. Agora começo a aprender a andar na zona sul… mas se saio, geralmente faço circuitos grandes porque tenho o costume de me perder. Outro dia saí da Vila Mariana e fui parar na zona leste, só que não sabia que ‘tava na Moóca’. Mas tudo bem… Só conheço a cidade quando me perco… (M.L.A. 18-24; F/ZO).

“Só conheço a cidade quando me perco”… Nômades que afirmam, num diálogo não-intencional com Walter Benjamin que, para conhecer uma cidade, é preciso perder-se nela: “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução” (1987:73).

A análise dos dados4 sobre nomadismo espacial confirma que a grande maioria dos jovens, tanto de zona sul como de zona oeste, afirma “gostar de circular pela cidade e descobrir novos lugares e pessoas”. Indagados sobre “o que o jovem mais precisa, se de ‘refúgio e proteção’ ou se de ‘soltar as amarras e sair pelo mundo’”, a maioria dos da zona sul assinalou a primeira resposta, enquanto a maior parte dos da zona oeste ficou com a segunda opção. A transparência do dado é notável: os jovens da zona sul precisam de “refúgio e proteção” pois experimentam muito mais proximamente situações externas de risco, começam a trabalhar mais cedo e saem pelo mundo cotidianamente. Os da zona oeste, por viverem certo nível de “moratória social” (Margulis e Urresti, 1998: 5), apelam por autonomia, soltar as amarras, sair pelo mundo.

São depositários de uma sensibilidade, que Simmel denominaria “vida mental” (1973: 11), capaz de dar conta de múltiplos influxos –sons, imagens, leituras– de forma alternada (ver TV, depois ler jornal e, em seguida, estudar e pesquisar na internet) ou de maneira simultânea (ouvir música, ao mesmo tempo em que assiste a TV, que fala ao telefone, que estuda e pesquisa na internet). As alternâncias e simultaneidades separam irmãos, com pouca diferença de idade e reforçam o “nomadismo de percepção”:

É assim, sempre estou lendo um jornal, assistindo a TV, procurando notícias da internet… Não, não consigo ouvir música enquanto estudo. Tem que estar completo silêncio se não, não consigo me concentrar. Só meu irmão que é meio maluco, ele bota uns sons, aquelas músicas que os caras uivam, não falam. Ah! não sei como ele consegue ligar o rádio, a TV e estudar ao mesmo tempo. Eu não consigo (R.R.A.M. 15-17; F/ZO).

Faço teatro, eu era bastante tímido, mas depois que comecei a fazer teatro perdi um pouco da minha timidez. Fiz um ano de violino e continuo tocando; também fiz reciclagem de papel e ‘silk screen’, que ainda faço na minha casa e que é estampar camisetas com o meu próprio desenho e design. Mexo com computador e dou aula de informática, gosto de montar ‘sites’ e dou aula de tapeçaria artesanal aos sábados… Sou muito ligado a som, música e ‘videogame’ (A.M.J. 18-24; M/ZS).

São nômades na busca por pertença fora do “lócus” de origem e nas cisões dentro do contexto familiar. Nômades nas rupturas com a escolaridade e com a escola oficial, por vezes calcada em normas autoritárias, em um corpo de valores individualistas e na exclusão do “outro”, diferente no rol de referências (Cubides, Toscano, Valderrama, 1998: IX):

O que mudaria na minha escola? O ensino, o ensino deles é seguir aquela meta passada (A.M.J. 18-24; M/ZS).

Comecei, parei, comecei, parei. Com tudo é assim. Porque estudava tudo. Queria sair de qualquer jeito do colégio, só que minha mãe não queria. Aí falei: “Então quero fazer magistério, aí tenho que sair do colégio”. Não sei se foi uma fuga, fiz dois anos de magistério, repeti por causa de matemática, saí e fui para outro colégio. Aí falei: “Não é o que quero”. Prestei… todas as outras faculdades, prestei administração só que como já tinha entrado na Faap, queria fazer Faap. E… prestei hotelaria, na verdade acho que queria hotelaria, não sei. Aí comecei a fazer, ‘tava indo bem, tal’. Só que… a Faap é muito cara. Aí não sabia se era isso e parei. Só que quando parei é… não… não sabia se queria voltar, aí comecei a trabalhar (M.L.A. 18-24; F/ZO).

São nômades em relação ao consumo e aos estilos de vida:

Quando era menor era metaleiro… mas aí, sei lá, fui gostando de outros gêneros musicais… fui metaleiro na oitava série. Tinha o cabelo comprido, tampava toda a cara. O pessoal tirava sarro assim, eu fazia cara de mau e dormia. Depois, já ouvia alguma coisa que não era metal, aí comecei a ouvir MPB (C.M.O.P. 15-17; M/ZO).

São nômades quanto às expressões da religiosidade:

É assim… minha mãe gosta de ir bastante à igreja… Eu também, assim… eu segui… eu era evangélica, né? Era… aí saí. Mas me atraem aquelas pessoas… budistas, essas coisas tudo assim (…) A primeira vez que fui numa igreja católica, vi um monte de santo ali… Acho que tava fazendo dez anos do massacre do Carandiru, então eu vi um monte de santo… e me deu um arrepio assim, ó… um santo negro, um santo que olhava assim pra você, meu deus! (J.S.S. 15-17; M/ZS).

Sou católica, mas fui um tempo mórmon. Antes eu não era de nenhuma e Minha mãe falava que a minha religião era só sair, só que resolvi entrar em uma. Antes a minha avó me levava para a igreja dela, na Assembléia de Deus, só que eu não gostava, eu fui para a mórmon da minha tia, tudo opção dos outros, a minha tia me chamava e eu tinha que ir quando era menor, a minha mãe falava: “você vai”. Agora a opção é minha (P.S.B. 15-17; F/ZS).

Nômades, enfim, diante da vida e da cultura.

Moratória social

aqui utilizado de acordo com a proposta de Margulis e Urresti (1998: 5), tem sido debatida a partir do momento em que se detectou uma tendência, em várias partes do mundo: os jovens, principalmente os de inserção social privilegiada têm permanecido na casa dos pais por mais tempo do que as gerações anteriores. Os principais motivos apontados pelos jovens paulistanos para começar a trabalhar foram, nessa ordem: ajudar em casa; comprar suas próprias coisas; e ser independente. Nenhum jovem da zona oeste, central, declarou como razão a exigência dos pais e nenhum jovem da zona sul, periférica, respondeu que começou a trabalhar para formar currículo ou para agregar conhecimento5.

A grande maioria dos jovens da zona sul utiliza parte de seu salário para ajudar nas despesas da família. Com gastos próprios, as despesas mais comuns são roupas e acessórios e, depois, alimentação, calçados e baladas. A maioria na zona oeste não precisa ajudar em casa e fica com todo seu salário, gastando com roupas, acessórios e baladas e, depois, com alimentação, cds e saúde. A moratória social apresenta-se como um dos fatores de explicitação das diferenças entre classes sociais, ou seja, das especificidades que separam zona sul e zona oeste.

Temporalidades

Diversas concepções de temporalidade dividem as gerações. O presente, para os jovens, vinculase, no geral, ao aqui e agora:

Tem que analisar o passado, analisar o presente pra poder ver o que posso melhorar para frente, mas viver sempre presente 100%. Não viver com a cabeça no passado ou com a cabeça no futuro. Viver 100% a cada momento. Eu ‘tô aqui’, tenho que estar aqui, então… agora que ‘tô aqui, tô’… 100% entrevista (A.I.U. 18-24; F/ZO).

Passado e futuro parecem não ter vida própria e quando referidos, emergem articulados ao tempo presente:

Futuro? Não penso, vivo como se fosse o último dia. Passo tudo que tenho que passar num dia, não sei se no outro vou estar viva. Amanhã faço a mesma coisa e vivo, não penso no futuro não. O presente deixo acontecer. Tudo acontecer. Do presente tenho um pouco de medo, tenho medo do que vai acontecer. Penso nas surpresas da vida, também prefiro não pensar, deixa (P.S.B. 15-17; F/ZS).

Entretanto, o passado pode dizer respeito a algo que precisa ser esquecido. A troca de perguntas e respostas, citada a seguir e coletada durante uma das entrevistas em profundidade, confirma esta hipótese:

O que é o tempo presente?/ É o que eu estou vivendo agora. / E o futuro? / É o que quero conseguir. / E o passado? / O que já foi de ruim. / O passado para você é o que ficou de ruim para trás? / Isso! / De que imagem boa lembra do passado? / De estar junto com os meus avós, os dois já faleceram, e ver a minha família junta. / Falou que quer esquecer o passado e lembrar de coisa boa, o que quer esquecer? / A necessidade que a gente tinha de trabalho e de alimentação. / Faltava? / Isso (A.M.J. 18-24; M/ZS).

Passado? Passado… foi bom, mas deixa ele lá, entendeu, prefiro não lembrar. Foi bom, mas deixa ele lá (R.B.S. 18-24; M/ZO).

O passado, tento apagar o que não gosto. É bom o passado. Alguma coisa… é bom não lembrar, mas têm outras que até é bom, você lembra o que aconteceu, fica lembrando as coisas boas. O passado para mim foi bom, não foi tão ruim, tem algumas coisas que eu evito, não gosto de lembrar (P.S.B. 15-17; F/ZS).

Finalmente, a concepção de juventude se mistura à dimensão da temporalidade presente. Quando solicitado a responder, “Qual é a primeira coisa que vem a sua cabeça quando se fala em juventude?”, um dos entrevistados afirma: “É curtir o momento; se posso me divertir hoje porque vou deixar para depois?” (A.M.J. 18-24; M/ZS).

De que falam os “lugares meus”?

As diversas temporalidades experimentadas por jovens da cidade de São Paulo, um dos mais marcantes paradigmas de metrópole no contexto brasileiro6, revelam interessantes cartografias de subjetividades quando, estes jovens, são diretamente abordados em seus lugares de lazer e encontro societal7. O destemor juvenil convive com vários temores, materializando-se em estratégias de comunicação, circulação pela cidade, reconhecimento inter-grupal e no reconhecimento e/ou negação do “outro”, do diferente.

Os espaços de encontro juvenil, públicos ou privados, são locais de demarcação na territorialidade de pertencimentos grupais. Neles, os jovens buscam consolidar suas articulações de sociabilidade extrainstitucionais. Funcionam como palcos nos quais podem exibir de modo mais ostensivo, espontâneo e coeso símbolos visuais, gestos, expressões verbais, práticas corporais e hábitos de consumo –inclusive ilícitos, como uso de maconha e ingestão de álcool por menores de idade– que afirmam simbolicamente e realizam, na prática, sua participação em agrupamentos culturais particulares.

É intrigante o fato dos jovens observados manifestarem a aceitação da convivência com o diverso mas, tácita ou explicitamente, evitarem a “contaminação”. Convivemos no espaço, mas não somos iguais, este é um discurso subjacente a inúmeras práticas de socialidade mapeadas na cidade de São Paulo. Muitas vezes, um mesmo lugar abriga tribos similares que, contudo, insistem em demarcar, no espaço, a sua diferença. É o que relatou o jovem L., de 23 anos8: “A marquise9 é dividida em três partes. O pedaço dos skatistas, o dos que andam de bicicleta e aquele que é dos patinadores. Essa divisão foi acertada informalmente depois de uma grande briga entre patinadores e skatistas, com gente que foi parar na delegacia e no pronto-socorro”.

Próximos espacialmente, distantes territorialmente. Contudo, eles se unem. Praticar a mesma atividade gera o pertencimento a uma irmandade “branca” que, mesmo sem se conhecer, defende-se mutuamente. Como descrito por L., “se você andar sempre de ‘skate’ aqui, mesmo sem ser amigo de ninguém, no dia em que você precisar todos [os skatistas] irão ajudar”.

Na Benedito Calixto10, a demarcação é mais sutil, com paredes invisíveis separando, em especial, o lado gay dos “outros”: o grupo de perfil universitário, pós-adolescente, agregado em uma iniciativa a la saída do colégio, em uma típica sociabilidade de tribos; os grupos menos hegemônicos, de idades e perfil variado que ocupam das calçadas até quase as ruas que margeiam a Praça, interessados em consumir altas doses de cerveja e em paquerar; os flutuantes, fazendo footing na Praça, “desfilando”, olhando e sendo olhado. As diferenças ficam de lado quando se trata de defender a ocupação do território que, literalmente, privatiza a Praça, as calçadas, teoricamente abertas à circulação de pedestres, e as ruas, teoricamente abertas à circulação de veículos.

A Galeria do Rock11 nos oferece um quadro mais particular. Nela, a demarcação das tribos é clara, assim como a “rejeição” implícita a freqüentadores que não pertencem a nenhuma das tribos. Nesse caso, é interessante notar como o “loteamento” da galeria dáse em consonância com uma segmentação do consumo simbólico, não parecendo existir muita simpatia por “tribalistas de butique”, ou seja, consumidores exclusivamente interessados em objetos, não “iniciados” no estilo de vida e de pensamento correlatos a tais símbolos (roupas, cd’s etc.) de pertencimento grupal.

ação juvenil nos territórios observados são flagrantes as iniciativas juvenis de transformação destes espaços em “locais seus”. Como sintetizado por R., garota de 16 anos, moradora da Lapa12, ao se referir à mesma Benedito Calixto: “Sabe, aqui é a minha casa”. Ou, como sugerido por F., 18, freqüentador do Posto da Faria Lima13. Mesmo este sendo um lugar para o qual os jovens se dirigem na expectativa de presenciar “rachas”, F. afirma ter escolhido freqüentá-lo pois “procurava um local tranqüilo para conversar com meus amigos”. Não é de se estranhar a recorrente presença da segurança particular, às vezes ostensiva, assumida como tal, às vezes discreta, mas sempre contundente. Em um dos locais, foi particularmente curiosa a narrativa apresentada por um dos “homens de preto”: não se trata, em alguns destes locais, de coibir atitudes ilícitas. Antes, trata-se de permitir que elas –o consumo de maconha, por exemplo– aconteçam com “tranqüilidade”.

A forte presença de “tribos” nos espaços observados pode levar, igualmente, à consolidação de lugares monotemáticos, arenas identitárias coesas e menos abertas à incorporação de membros estranhos. Exemplar mais significativo desta realidade é a LAN House observada, que impressiona quanto a fidelização de sua clientela. O jovem F., 19 anos, segundo alegou, estava a duas noites sem dormir, participando de uma disputa “virtual” com outros jovens do grupo, que parecem viver em um mundo microscópico, fechado. Mais uma vez o estar aqui –no local do encontro– regula- se por outro estar aqui –no grupo de pertencimento–. É assim, portanto, que os jovens estão ali. E, nesta situação, mais uma vez desenha-se um “mapa de tensões”: estou aqui, apesar da cidade; estou aqui, apesar e por conta de meu engajamento profissional; estou aqui, eu mesmo, mas eu mesmo referendado pelo meu grupo; estou aqui, apesar de e/ ou referendado pela conivência, desconhecimento ou autorização de meus familiares. Estou aqui, em alguns casos, apesar de meu pertencimento de classe ou bairro de origem.

Confirma-se uma tese concernente ao “modo de viver” a temporalidade metropolitana articulada aos sensóreos juvenis: criar “ilhas” equivale a criar lugares inerciais que permitem, em meio à agitação metropolitana, viver-se um tempo “próprio”, particular, seja ele regido, entre outros, pelo risco (como no “rappel”14), pelo ócio (como na Praça Benedito Calixto), pela ação física (como na Marquise do Parque do Ibirapuera), pela interação virtual (como em variadas LANs).

A partilha se dá igualmente através da utilização de gírias. Boa parte faz referência a uma marcação de tempo e de intensidade: o recorrente “tá ligado?” (entende, está atento, acompanha, confirma), o citadíssimo “da hora” (muito bom, muito legal, muito atual), mas também em “sussa” (sossegado) e em “irado” (excepcionalmente bom, intensamente bom). Confirma-se um vínculo ou experimentação temporal bastante ambivalente: de um lado, o êxtase –com a urgência de viver com intensidade e com a concentração das experiências no mundo do “aqui e agora”–, de outro, a anestesia –com discursos e atitudes que sinalizam certo comportamento “blasé”, com a afirmação de uma tranqüilidade quase reativa ou com o investimento no potencial “desvinculante” e letárgico de drogas e álcool, os mesmos, diga-se de passagem, utilizados para excitar e acelerar15. Os jovens da geração “tá ligado”, parecem, nesse aspecto, ser também representantes de uma cultura do “liga/desliga” ininterrupto.

Esta pesquisa priorizou o acesso a jovens metropolitanos, moradores das zonas sul e oeste da cidade de São Paulo, por meio da coleta de narrativas construídas a partir de fragmentos de seu cotidiano e de sua vida na cidade. Tentou- se compartilhar e interagir com estes jovens em seus próprios contextos culturais e, também, em situações especialmente organizadas para coleta de informações.

É importante considerar que os relatos juvenis ocupam, neste contexto, um lugar epistemológico e metodológico privilegiado para observar suas representações e formas de sociabilidade, numa etnografia dos usos que investigou os movimentos de ruptura e continuidade, de enraizamento e deslocamento.

Os jovens em São Paulo –e também em outros lugares do mundo– formam um grupo singularmente atingido pelas rapidíssimas transformações no panorama de nossa sociedade. Assim, torna-se cada vez mais necessário compreender o sentido de suas narrativas e, através delas, decifrar seus “modos de ser e de viver”. As “falas” emergem entrelaçadas pelo sentido de urgência, destemor, ousadia e desassossego, pela ausência de esperança, desemprego e consumo inviabilizado. Fatos tais como trânsito e poluição, exposição excessiva aos chocs da vida na metrópole, relação com as mídias e as novas tecnologias, isolamentos das periferias em relação ao centro e disseminação do medo entranham-se na vida cotidiana, transformando-se em geradores de novas violências, mas também de novas percepções, sensórios e contornos da vida mental.


Citas

1 Referências como esta estão relacionadas às entrevistas em profundidade: iniciais do nome dos(as) entrevistados (as); faixa etária (15-17/18-24); gênero (M/F); zonas de moradia e contraste na cidade de São Paulo (S/O – sul [alto grau de exclusão sócio-cultural]/oeste [bom nível de acesso ao capital cultural]).

2 A noção de “mapas de tensão” está diretamente vinculada ao que indica Martín-Barbero sobre os “mapas noturnos”. Diz ele: “un mapa para indagar no otras cosas (…) pero desde el otro lado: el de las brechas, el consumo y el placer. Un mapa no para la fuga, sino para el conocimiento de la situación desde las mediaciones y los sujetos”. De los medios a las mediaciones, p. 229.

3 Os jovens entre 15 e 24 anos representam um contingente considerável de nossa população e o cenário que estamos visualizando corresponde às grandes cidades, em particular, ao município de São Paulo em bairros da região sul e oeste.

4 Coletados através de questionário estruturado.

5 Estes últimos, em sua maioria, ingressam no mercado de trabalho mais cedo, entre 15 e 17 anos.

6 Associada a experimentações de urbanidade, protagonismo cultural e produtividade econômica, entre outros.

7 Na observação etnográfica realizada nesta pesquisa, foram observados, ao todo, quatorze locais. Destes, dez são locais de cruzamento de jovens vindos de variados bairros e classes sociais.

8 Referências como essa estão relacionadas às entrevistas realizadas durante a observação etnográfica e contém a inicial do(as) entrevistados e sua respectiva idade.

9 Marquise localizada no Parque do Ibirapuera, grande área verde da cidade, que, entre outros, sedia o prédio da Bienal de Artes do país. No final de semana, é ponto de lazer e encontro disputado por diferentes grupos e classes sociais. A marquise concentra várias atividades, principalmente relacionadas ao skate, patins e bicicletas.

10 Praça pública que abriga, aos sábados, feira de antiguidades e praça de alimentação, margeada por bares e outras lojas comerciais.

11 Galeria temática bastante antiga, localizada no centro de São Paulo, local de cruzamento de jovens advindos de diferentes regiões da cidade, consolidou-se como ponto de encontro de tribos urbanas: rappers, hip-hoppers, adeptos do reggae, góticos, punk-rockers, hardrockers, metaleiros, entre outros. Possui ainda lojas de cabeleireiros e algumas de rock “clássico”. Nos corredores e barzinhos, demarcados pelos diferentes andares da galeria, circulam e se socializam partidários dos diferentes estilos.

12 Bairro da zona oeste de São Paulo.

13 Local de cruzamento de jovens provenientes de diferentes regiões da cidade. Trata-se de posto de gasolina com loja de conveniências, utilizado para a ostentação de carros “turbinados” e como ponto de encontro e partida para a realização e observação de “rachas”, competições de velocidade automobilística em espaço urbano, realizadas, obviamente, sem nenhuma legalização.

14 Descida, amparado por cordas e cinturões de segurança, de grandes alturas.

15 Os mais visíveis agregadores desses diferentes universos são o consumo de maconha e de álcool.


Bibliografía

  1. BENJAMIN, Walter, Walter Benjamin. Obras Escolhidas III. Charles Baudelaire. Um lírico no auge do capitalismo, São Paulo, Brasiliense, 1989.
  2. BORELLI, Silvia Helena Simões e Rocha, Rosamaria Luiza de Melo (Coord.); Gislene Silva; Josimey Costa; Rita Alves de Oliveira; Rosana de Lima Soares, Jovens urbanos: concepções de vida e morte, experimentação da violência e consumo cultural, Relatório FAPESP, São Paulo, 2003.
  3. CUBIDES, Humberto J.; Laverde, María Cristina y Valderrama, Carlos E. (Org.), Viviendo a toda: jóvenes, territorios culturales y nuevas sensibilidades, Bogotá, DIUC – Universidad Central / Siglo del Hombre, 1998.
  4. MAFFESOLI, Michel, “Nomadismo juvenil”, in: Revista Nómadas, Bogotá, DIUC – Universidad Central, No. 13, out. 2000.
  5. MARGULIS, Mario e Urresti, Marcelo, “La construcción social de la condición de juventud”, en: Cubides, Humberto J.; Laverde T., María Cristina; Valderrama, Carlos E. (Org.), Viviendo a toda: jóvenes, territorios culturales y nuevas sensibilidades, Bogotá, DIUC – Universidad Central / Siglo del Hombre, 1998.
  6. MARTÍN-BARBERO, Jesús, “A cidade virtual. Transformações da sensibilidade e novos cenários da comunicação”, en: Revista Margem, São Paulo, Educ. / FAPESP, No. 6, dez. 1997.
  7. ________, “Jóvenes: des-orden cultural y palimpsestos de identidad”, en: Cubides, Humberto J.; Laverde, María Cristina; Valderrama, Carlos E., (Org.), Viviendo a toda: jóvenes, territorios culturales y nuevas sensibilidades, Bogotá, DIUC – Universidad Central / Siglo del Hombre, 1998.
  8. MORIN, Edgar, Cultura de massas no século XX. O espírito do tempo 1, Neurose, 6ª ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1984.
  9. SIMMEL, Georg, “A metrópole e a vida mental”, en: Otávio Guilherme Velho (Org.), O fenômeno urbano, Rio de Janeiro, Zahar, 1973.

Contáctenos

Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos – IESCO

Carrera 15 No. 75-14, pisos 6° y 7°

Bogotá, Colombia

Tels. (+57-1) 3239868 ext. 1613 – 1615

Correos electrónicos: nomadas@ucentral.edu.co