Spanish English Portuguese
  Versión PDF

 

Joven e experimentações da violência no Brasil: estética da destruição, sociabilidades limítrofes

Jóvenes y experiencias de violencia en Brasil: estética de la destrucción, sociabilidades limítrofes

Young people and experiences of violence in Brazil: aesthetics of destruction, bordering sociabilities

Rosamaria Luiza de Melo Rocha*


* Doctora en Ciencias de la Comunicación de la Universidad de Sao Pablo. Posdoctorada en Ciencias Sociales en la Pontificia Universidad Católica de Sao Pablo. Miembro del Núcleo de Estudios en Complejidad (PUC/SP) y del Núcleo de Estudios Filosóficos de Comunica Vao (ECA/USP).


Resumen

El artículo aborda algunos fenómenos de violencia en ciudades brasileñas, desde un punto de vista comunicacional; la autora logra identificar intersecciones entre ellos, particularmente frente a aspectos de visibilidad, construcción de identidad y sociabilidad que involucran a jóvenes urbanos.

Buscando sintetizar reflexiones acerca de ciertas ocurrencias de la violencia –acto social y simbólico- en tal contexto, centra su preocupación en la experimentación de una “cultura do risco” – desafiante, personalista y a veces letal.

Propone, además, que la violencia se manifiesta y puede ser percibida bajo un proceso dinámico y dialógico fundado en originales ordenaciones sociales y visuales. Postula, finalmente, que la violencia hoy constituye un poderoso lenguaje, una pedagogía percibida e “incorporada” por diversos sectores juveniles.

Este por demás inquietante componente de la comunicación urbana, termina poniendo en evidencia lugares de construcción identitaria a veces tensionados y explosivos, a veces estetizados, poéticos, demarcados por la creciente simbiosis media/sociedad, por la vivencia de los media en cuanto nuevo espacio público y de las ciudades en cuanto peculiares escenarios y focos preferenciales de la visibilidad mediatizada.

Abstract

The article approaches the phenomena of violence in Brazilian cities from a communicational perspective; the author is able to identify intersections between these phenomena, particularly what they have to do with aspects of visibility and construction of identity and sociability as these concepts relate to urban youth.

Looking to summarize reflections about certain occurences of violence — a social and symbolic act –- in that context, the author focuses her concern on the experimentation of a “culture of risk,” which is challenging, personalist, and sometimes lethal.

In addition, she proposes that violence manifests itself and can be perceived in a dynamic and dialogic process founded on original social and visual orderings. Finally, she postulates that violence today constitutes a powerful language, a pedagogy perceived and “incorporated” by diverse sectors of youth.

This very perturbing component of urban communication shows places of construction of identity that are sometimes tense and explosive, sometimes aesthetized, poetic, delimited by the growing media-society symbiosis, by personal experience with the media as a new public space and the cities as peculiar scenarios and preferential focuses of mass media visibility.


O sangue tem manchado/ Nossos cartões postais (…)/ Quadrilhas rivais, matanças brutais(…)/O que acontece aqui e lá, pá pá pá/Tem influência no país inteiro, rá tá tá/Um Quarto mundo dentro de um terceiro/Barril de pólvora pra explodir/ K.D.meu isqueiro? (Pavilhão 9, “Vietnan”)

Quem é Terceiro não me leve a mal/Porque o Comando dominou geral/E esse rap que eu canto aqui/ Estou oferecendo pro bonde do Odir/Vida do crime, meu irmão/É pra quem tem disposição (“Rap da invasão do Odir”1)

Pesquisando as repercussões simbólicas e materiais da violência nas cidades brasileiras2 é possível localizar as marcas deixadas tanto pelo “fantasma” da violência quanto por sua prática difundida. Edificações, ruas, muros, circuitos eletrônicos, cercas, grades… muitos parecem funcionar como uma intrigante afirmação de potência diante do “mundo externo”. Determinados espaços urbanos comprovam que, assim como os discursos e narrativas sobre a violência, também o “construir” e o “demarcar” comportam um aspecto performático; são singulares componentes — e talvez um dos nós mais perenes — da cadeia lingüística e do próprio ciclo da violência. O atual sentimento de insegurança resultaria, nestes termos, de uma amplificação dos riscos, de uma obsessão egoísta por proteção, estabelecendo um paradoxo: o espaço/tempo urbano, em termos macro, propicia a dessocialização para, microscopicamente, como na coesão grupal baseada na violência, assistir à emergência e cristalização de padrões originais, ainda que indesejados, de sociabilidade3.

Das manifestações de agressão cega às práticas autodestrutivas, a violência multiplica sua face, ambíguo espelho identitário que referenda a ação. Não mais o reverso do controle, mas a eclosão anômala de sua própria condição de incerteza. O plástico filme da segurança máxima emperra nas engrenagens do projetor. E neste ponto ele queima. Mais do que uma banalização da violência, fenômenos ocorridos recentemente no Brasil ilustram como estratégias de autodefesa podem encampar um perverso “esporte” de agressão gratuita encampado por setores juvenis, com a flagrante ultrapassagem de fronteiras de classe. O caso dos “beiseboys”4 é apenas um entre tantas das singulares manifestações da “autonomização” da violência na cultura jovem. Utilizando tacos de beisebol como “arma branca” na resolução de conflitos — de uma briga de trânsito até as desavenças estritamente pessoais —, todos os entrevistados são unânimes em justificar seu uso com o apelo à defesa pessoal. Ainda não haviam vindo a público, na época de veiculação deste episódio, fatos como o assassinato de um índio pataxó por um grupo de adolescentes de classe média alta na Capital Federal, Brasília5. Mas uma das imagens constantes de uma reportagem que documentava a ocorrência foi suficientemente profética: a cena do filme “Laranja Mecânica”, em que os mesmos tacos eram usados para espancar um mendigo.

Navegando na contra-mão ou o prazer do risco

Em documentários sobre o movimento funk na cidade do Rio de Janeiro, chama atenção, por sua vez, a constante referência dos entrevistados à morte, pontuada pelo riso e pela afirmação de virilidade. Dos enfrentamentos simbólicos aos conflitos com seguranças, da provocação coreografada ao acerto de contas armado na saída dos bailes, a linguagem da violência está ali, engendrando um frágil destemor, signos distintivos adotados por uma massa de “ejetados” do fluxo urbano, que explode, aqui e ali, na forma de autodestruição. No êxtase da afirmação de potência individual, a ritualização alucinatória do corpo do “outro” e, igualmente, a desclassificação coletiva da vida: “— Quem vai no baile tem consciência do risco que corre, tem de estar preparado pra morrer… e a mulherada gosta dos caras destemidos, por quê você acha que o bandidão tem as garotas mais bonitas do pedaço?”, era algo assim o que dizia, sorridente, um dos jovens entrevistados6.

Em outro contexto, o mesmo desejo de desafiar a morte, de testar ao extremo seus limites: é a prática dos rachas, forma selvagem e empobrecida dos esportes radicais, das corridas de Fórmula 1. Aqui, dirigir um carro equivale a ganhar um passaporte para o mundo masculino e competitivo do “quem chega antes a lugar nenhum”, desejo cinematicamente mitificado, na época dos jovens sem destino, na figura de James Dean. Não é de se estranhar o impacto da morte do piloto Ayrton Senna: ele havia conseguido o gozo máximo no domínio da máquina, juntos eram um só. Mas a glamourização do risco não lhe pouparia a vida.

As fugas cinematográficas protagonizadas pelo jovem assaltante Leonardo Pareja7 também ilustram uma das lamentáveis faces do desejo de sucesso e perigo desfrutado em um intenso e contínuo presente, melhor ainda se propagado ad infinitum por registros mediáticos. A intensidade do vivido parece, em casos como este, superar a percepção da extensão e das conseqüências do delito. Relatos de jovens de classe média envolvidos em ações criminosas tendem igualmente a retratar esta união entre banalização do delito e gosto pelo risco. Em um destes casos, o envolvido dizia ter participado de assaltos “por curiosidade”, “para ver como era a sensação do perigo”. Outro jovem, preso por participação em um assassinato, declarava ter matado por “bobeira”. Um adolescente de 17 anos, filho de uma comerciante, afirmava ter passado a furtar “para poder me vestir melhor”8. Como dizia Pareja, diante do espelho narcíseo das câmeras de tevê, “roubava pelo gosto da emoção. E também porque queria ter dinheiro, não suportava ficar sem dinheiro para viajar, comer bem, ir ao cinema”.

Não por acaso, as praias cariocas foram o palco escolhido para o potente aparecimento dos “arrastões”, explosões juvenis de agregação forçada, inclusão marcada pela extrema rapidez de movimentação e pela efemeridade, com a ostentação de signos distintivos, de uma identidade cunhada na exclusão, de uma estética própria, invadindo um espaço consagrado ao relaxamento e ao ócio, explicitando que, muitas vezes e para muitos jovens, o limite entre prazer e risco, entre lazer e combate está se tornando por demais tênue. A movimentação juvenil que tomou de assalto as praias, fazendo delas um enorme playground da diversão e das sociabilidades limítrofres, receberia, já em sua primeira grande ocorrência, em 18 de outubro de 1992, um domingo, esta denominação, “arrastão”, movida pela similaridade entre a atitude atribuída aos jovens — formando, com seus corpos em movimento, uma rede para supostamente roubar pertences dos banhistas, literalmente arrastando-os, expulsandoos, em pânico, das praias — e a tradicional atividade dos pescadores9. Em setembro do ano seguinte e no dia 12 de outubro do mesmo 1993, algo voltaria a acontecer — nesta última data, em franca exibição para o registro mediático. Em 92, a grande cobertura, do “grande arrastão”, ocorreria no dominical programa “Fantástico”, semanário de variedades da Rede Globo, assistido durante décadas por inúmeras gerações de brasileiros e um dos baluartes da integração familiar em torno de exibições televisivas. Em 93, no compenetrado “Jornal Nacional”, carro-chefe do telejornalismo desta que é a maior emissora de TV do país, a mesma Rede Globo.10

Nas praias, Ipanema e Arpoador, uma confusão, iniciada por cerca de cinqüenta garotos, não se estenderia muito. Mas talvez já anunciasse o que iria ocorrer em outubro — a encenação do confronto e o pânico dos que já se sentiam previamente ameaçados. Estes deveriam lidar com um sentimento paradoxal: à comoção ante o extermínio dos meninos de rua na Candelária e da chacina na favela de Vigário Geral11 somavase o pânico ante candidatos potenciais a exterminados. Se, em 92, a classificação do “roubo coletivo” prosperava, os acontecimentos de 93 apresentariam uma incômoda impermeabilidade interpretativa. A despeito da “criminalização” dos acontecimentos, foram pouquíssimos os roubos comprovados — se é que os houve. Astúcia inesperada, a multidão de jovens exibia-se intencionalmente para as câmeras e, mais ainda, através de um ritual de enfrentamento cujos códigos só eles compartilhavam. Exibiam um poder, um vigor, uma coreografia e uma música que, naquele momento, os telejornais desconheciam. Seu teatro caótico era incompreensível. O enfrentamento codificado e a disputa intergrupal e auto-destrutiva uniam-se, repentinamente, em um só corpo “desafiante”. Unidos pela linguagem da velocidade, seguiam juntos na consecução de um desafio maior, da conquista de um alvo que, por vezes, parecia ser a própria velocidade, que lhes permitia avançar sobre o território “estrangeiro” — a praia e a tevê.

Foram muitas as tentativas de “desvendar” a potente invasão codificada, aquela contaminação que parecia ultrapassar, mais do que o espaço dos bailes, qualquer projeto ou orientação prévia, qualquer comando externo. Os garotos que se vêem nas cenas estavam tomados de uma alegria inebriante, de um êxtase súbito de reconhecimento, encantados com sua própria visibilidade, submersos no ritmo da multidão que colocavam em movimento. O que os jovens levaram ao templo do ócio era também uma vivência muito particular da temporalidade. Os motivos desencadeadores posteriormente alegados (a briga de galeras, a extensão da rivalidade de facções da criminalidade organizada) seriam questionados pelo desenrolar dos fatos e pelas investigações mais acuradas. Desfrutar do impacto causado pela movimentação — a expulsão ou intimidação dos banhistas, a presença das câmeras de tevê que corriam para acompanhá- los — parecia ser realmente o que interessava, o que tornava mais saborosa a diversão. As galeras, mesmo os grupos sem nome e identificação estavam cientes de seu “valor de marca”. Dispunham, na praia, de algo bem mais interessante do que uma griffe para ostentar. Contrapondo-se ao desfrute da lentidão sensorial, dos corpos estendidos e distensionados na areia, irromperam com sua vivência de um presente total, vivência colada a sua pele, desprendendo- se, como suor, de seus corpos e gestos, da velocidade violenta, da mobilidade contagiante, da intensidade de sua atuação. Este tempo sem futuro, êxtase orgiástico e por vezes auto-destrutivo do aqui-agora, literalmente chocava- se contra a multidão dos banhistas, desafiando-lhes a sair do lugar, tanto simbólico quanto espacial.

Quando foram para as praias, pouco havia, para os garotos das galeras de favelas e subúrbios, de algo que lembrasse o estilo de vestir que exibem nos bailes. As bermudas, os tênis de griffe, ambos soariam por demais banais no lugar que ocuparam. O que exibiam era sua própria imagem — corporal, social, racial — , era ela a própria incógnita, embalada pela ostentação de um código — as danças, os enfrentamentos, os cantos de guerra — que também soava desconcertante para grande parte daqueles banhistas “da zona sul”. “Vamos invadir a praia dos playboys para mostrar que a gente existe”, diria um dos jovens das galeras entrevistadas12. Se havia semelhança entre o clima dos arrastões e aquele dos bailes funk, esta não era marcada exclusivamente pela violência, mas propriamente pela festa.

Da estética à dizimação: autodestruição e destruição do outro

O que de mais preocupante emerge destas análises é a possibilidade de que tal experimentação da violência pela violência, do êxtase destrutivo de base autoreferencial, esteja se difundindo sob a forma de um padrão de gosto e de obtenção de prazer, um “agenciamento do desejo”, como escrevem Deleuze e Guattari em Mil platôs13, alimentando uma linguagem da violência que, mesmo se estetizada em sua forma de aparecimento, tem resultados objetivos de dimensão dramática e extensiva. Submergir ao poder do êxtase da violência equivale, na verdade, a um mergulho deliberado na hiperexcitação sensorial de uma temporalidade sem cronologia. Mais do que uma ultrapassagem da razão, trata-se da ultrapassagem da limitação corpórea — pessoal e do outro —, a perda da referência distintiva interior/exterior. É ela que, invariavelmente, se quer negar, como se, desafiando-a, o homem se tornasse mais potente do que seu limite físico, e o “objeto da destruição” significasse muito mais do que sua conformação objetiva. Em situações como essa, a autodestruição ou a destruição do corpo do outro parecem contar pouco. Narcisismo e niilismo se confundem. A embriaguez da potência destrutiva leva à ultrapassagem dos limites do corpo e da sociabilidade. Os corpos, parafraseando Paul Virilio14, tornam-se eles mesmos “máquinas de guerra”. A competição ou o desejo de vencê-la convertem-se em desejo de destruição pura e simples, neste combate do qual se pode sair destroçado. Des- truir é mais importante que vencer.

Outro episódio de violência coletiva ocorrido no Brasil traça pontos de contato com os casos apresentados, corroborando algumas de suas proposições e mostrando que, outras, são ainda novelos a serem longamente desenredados. Trata-se da eclosão, televisibilizada, de confrontos violentos em jogos de futebol brasileiros, envolvendo grande número de torcedores dos times que disputavam a partida. Nestes episódios, o “jogo da violência” que, nos arrastões, tem o caráter do enfrentamento agressivo e ritualizado, evolui para uma brincadeira mais arriscada, mais letal; a diversão torna-se um jogo de destruição e morte.

O mais impressionante deles, de maior proporção e repercussão nos media, aconteceria no dia 20 de agosto de 1995, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, após a decisão da Supercopa de Juniores entre Palmeiras e São Paulo. Este fenômeno específico — a batalha campal sangrenta e explosiva, com o saldo de 102 feridos, um dos rapazes agredidos diante das câmeras vindo posteriormente a falecer — foi veiculado, direto e ao vivo, pelas redes de tevê. As cenas que se viram, submetidas posteriormente aos mais diversos recursos técnicos (iluminação, “congelamento”, câmera lenta, repetição), mostravam uma movimentação veloz e desordenada, um clima de guerra desconexa estampado nas feições dos agressoresvítimas, em que a violência ultrapassava qualquer bandeira e “filiação” prévia. Quando a violência contagiou a massa de torcedores, mais vigorosa do que assustada, mais violenta que organizada, aqueles jovens nada pareciam “defender”, tomados de uma ânsia destrutiva que colocava em risco sua própria integridade física.

Se esta violência extremada, explosiva, não pode ser considerada um componente estrutural perene, seja das organizadas, seja do comportamento do torcedor comum, parece-me inegável que, no momento em que explodiu o conflito intergrupal, o enfrentamento de dimensão coletiva, eram a violência e o desejo de enfrentamento e destruição do outro o agregador comum, ainda que circunscrito e circunstancial, que embalavam e uniam os jovens adversários. Se é cíclica ou esporádica a adoção de um comportamento explosivo de grandes dimensões — causando a destruição de estádios e o enfrentamento direto, o ataque físico intergrupal — , a presença da violência como ato de agressão brutal não está na verdade excluída do cotidiano “uniformizado”. É este o quadro que nos apresenta um ex-membro de organizadas. O portrait de um bárbaro a tempo parcial oferecido registra, já em 94, um ano antes da grande explosão do Pacaembu, que “as torcidas organizadas perderam qualquer limite para suas ações violentas, porque viram que a chance da impunidade é muito grande”. Os “personagens” que dão vida a esta fala são todos muito jovens e muito violentos, desprovidos de pudor, arrependimento ou algo que se possa chamar “consciência crítica”. São garotos quase felizes com a destruição que promovem, quase despreocupados com as implicações de seus atos. São movidos por uma coragem absoluta que lhes é outorgada pelo pertencimento à torcida, pelo empunhar de sua bandeira, pelo entoar de seu hino, a camisa do time passando de símbolo integrador a escudo que lhes protege do medo. Mas, quando tomados de excitação após um combate intergrupal, após uma partida, mesmo que “pacífica”, o desejo da violência eventualmente obscurece a identidade grupal. Em momentos como este, o alvo da agressão, o receptáculo da violência que querem a todo custo extravasar pode ser o torcedor comum ou, até mesmo, os colegas de organizada.

Sem descartar as diferenças e particularidades de cada agrupamento — tanto em termos de sua organização interna, quanto de sua inserção e significado sócio-cultural — pode-se afirmar que o tipo de ocupação do espaço feita por torcidas e por participantes do segundo arrastão causou um impacto disruptivo semelhante. Ambos, valendo-se do «efeito medium» que despertavam, cristalizaram, ao vivo e nas telas, uma linguagem da violência potente e veloz, autoreferencializada mas, nem por isso, anômica. Regras existiam, mas elas eram definidas pelo grupo conflitivo, pela circunstância e desdobramentos da «batalha».

Em um caso, o palco do espetáculo foi a praia, em outro, o estádio e o campo de futebol; ambos, lugares de lazer. O primeiro, dedicado ao ócio, ao relaxamento corpóreo; o outro, dedicado à paixão da disputa, dos corpos retesados à espera da catarse. Na praia, havia a sensualidade à mostra, distendida, os corpos que se olham e não se tocam. No campo, a sexualidade tensa, um tanto misógina, feita de corpos em atrito, de descargas em uníssono. Na praia, os corpos despidos, distinguindo-se pelo formato, pelos maiores ou menores cuidados, demarcados pelo atributo da saúde, da beleza física. No campo, os corpos vestidos, uniformizados, as roupas em seu valor ritual, ostentando a integraçãodiferenciação através dos emblemas do “time”. Nos dois “lugares” emergia a ocupação agressiva, desafiadora. Uma, anômala em seu acontecer, não eliminava o código facilmente reconhecível, compartilhado por milhões de brasileiros, como a ultrajá-lo; a outra, era por si codificada, falava de coisas que não se “conhecia” ou não se assimilava, mas trazia consigo o código de corpos em estado de enfrentamento, ostentando o valor diferencial de suas próprias características físicas, como a devolver, por força da velocidade e da ocupação violenta, o estigma que a eles era imputado. Os bárbaros que colonizaram nossos vídeos, estes saqueadores do instante, não haviam de fato “perdido o controle”. Eles dominavam, como ninguém, o tempo e o espaço, embalados pelo anonimato e pelo pertencimento ao grupo, mas, mesmo assim, exibindo esta alma coletiva, este “rosto” transfigurado para as câmeras.


Citas

1 Este rap consta de fita apreendida pela polícia carioca em dezembro de 95, contendo detalhes da retomada de bocas-de-fumo por um comboio do Comando Vermelho, poderosa facção do narcotráfico no Brasil. A “operação” resultara na morte de oito integrantes do grupo rival, todos decapitados. Nesta mesma área de conflito haviam sido baleados torcedores do Santos, um time de futebol do Estado de São Paulo.

2 Este artigo contém uma pequena síntese de pesquisas desenvolvidas pela autora, que contaram com o apoio financeiro de Cnpq e Fapesp. São várias as referências documentais e bibliográficas que sustentam este trabalho. Por limitações de espaço, não se encontram aqui reproduzidas. Para uma visão detalhada deste aporte, consultar a tese de doutorado Estética da violência: por uma arqueologia dos vestígios (São Paulo, ECA/USP, 1998), de nossa autoria.

3 Obviamente, a violência não é o único fator de coesão. Também o podem ser a diversão, o lazer, as relações de amizade, o desejo de encontro, entre outros. Mas o que se observa é a tendência de que a interação social se desloque das ruas para “interiores”, privados e pessoais, das “tribos” aos espaços fechados como os bailes, os shoppings, as casas. Esta possibilidade, que alguns autores classificam como universal, é mais clara em países e cidades nos quais o espaço público é desvalorizado e deteriorado, quando muito passando por processos e projetos de assepsia.

4 Documentado no caderno Folhateen do jornal Folha de S. Paulo, em 24 de julho de 1995.

5 O índio, morto após ser incendiado pelo grupo de adolescentes, dormia nas ruas da cidade, sob a marquise de um ponto de ônibus. O episódio gerou profunda indignação no país.

6 Em outros cantos da cidade, adolescentes moradores de condomínios fechados de alto padrão envolvem-se em acidentes de carro, em atropelamentos, colecionam acusações de vandalismo. Em um destes casos, garotos entre 13 e 17 anos foram acusados de espancar o faxineiro do condomínio quando este tentava tirar o skate de um deles, de uso proibido na garagem do prédio. Outro episódio que veio a público é o do grupo de adolescentes que, numa sucessão de “brincadeiras violentas”, teria causado o incêndio do apartamento do zelador de um condomínio vertical.

7 Este jovem criminoso, articulado, bemeducado e de boa aparência, conquistou, em sua breve “carrreira”, uma incrível notoriedade, manipulando com excelência seus aparecimentos na mídia. Após arregimentar uma legião de fãs extramuros, foi morto a tiros no interior do Cepaigo (Centro Penitenciário Agroindustrial de Goiás), em dezembro de 1996.

8 O Estado de S. Paulo, 27/07/96; Folha de S. Paulo, 03/09/96.

9 Nos anos de 92 e 93 a referência a uma “onda de arrastões” estava presente em vários veículos da imprensa nacional. Fazia-se referência, neste caso, a ocorrências mais marcadamente criminais ou àquelas que configurassem uma “briga de gangues”, ambas esporádicas, localizadas, mas persistentes. Não disponho de dados que permitam aferir a procedência de tal classificação, mas tanto a revisão bibliográfica realizada quanto conversas informais com cariocas levam-me a suspeitar que houvesse, nesta denominação, um forte viés alarmista e generalista. Os episódios que discuto — a movimentação de outubro de 1992 e aquela de outubro de 1993 —, além de originais em termos de seu impacto mediático, posto que houve cobertura ao vivo e destacada inserção no noticiário televisivo, possuem o diferencial de terem se constituído como fenômeno de dimensão coletiva, envolvendo grande número de jovens, agrupados ou não em “galeras”. Em 93, a pesquisa realizada permite constatar que não se tratava de uma movimentação com finalidade criminal determinante ou significativa. Mas, neste ano, era clara a consciência do “efeito media” que se poderia obter com a manifestação.

10 No caso da cobertura televisiva, mesmo considerando-se que outras emissoras veicularam os episódios, o campo espectorial atingido por tais programas e a supremacia técnica da Rede Globo levam diversos analistas a valorizarem, justificadamente, este impacto deflagrador, tanto em termos da “autocelebração” compartilhada, quanto na importância que tal visibilidade específica adquiriu, seja para os participantes, seja para outros setores da população, que não o presenciaram diretamente.

11 Essas chacinas se tornaram paradigmáticas da situação da violência no Brasil. Representaram uma ferida psíquica e um divisor de águas inequívoco, atestando o trágico espraiamento da impunidade e dos atos de violência cega que referendam uma política branca de dizimação.

12 OESP, 21 de outubro de 1993.

13 Mil Platôs. Capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. Rio de Janeiro, Editora 34, 1996.

14 Línsecurité du territorire. Paris, Galilée, 1989.


Contáctenos

Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos – IESCO

Carrera 15 No. 75-14, pisos 6° y 7°

Bogotá, Colombia

Tels. (+57-1) 3239868 ext. 1613 – 1615

Correos electrónicos: nomadas@ucentral.edu.co